Jornal Evangélico Luterano

Ano 2016 | número 795

Terça-feira, 15 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 08:05

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

O limite da liberdade

   Certa vez, estávamos em um Grupo de Estudo Bíblico e o tema proposto era Os limites e a responsabilidade da liberdade. Um jovem, em tom de brincadeira, disse: ‘quem tem limite é município, não nós’. Então, será que liberdade tem limites?

   Um limite geográfico marca até onde vai um território e, geralmente, significa segurança e direção para os seus habitantes. Quando voltamos para casa, por exemplo, gostamos de reconhecer que chegamos dentro dos limites da terra em que nascemos. Se estamos em casa, então estamos livres!

   Com a liberdade, ocorre o mesmo: os limites servem para garantir a nossa própria liberdade. Podemos experimentar a sensação de liberdade quando atravessamos os limites, seja do município, do país ou da vida, mas, se isso significa avançar para um território desconhecido, sem uma orientação ou um mapa, sem saber para onde se vai, logo nos damos conta que não estamos realmente livres, mas perdidos! Aí a sensação de liberdade vira desespero.

Livres ou perdidos?

   No Evangelho segundo Lucas (15.11-32), Jesus conta a parábola do Filho Pródigo. O filho queria a liberdade que o mundo lhe oferecia. O pai confia a ele muito dinheiro e ele sai mundo afora, aproveitando a vida. Logo o filho se perderá, porque viveu uma falsa liberdade. Por causa disto, os porcos foram os seus companheiros de mesa. Ele usou mal a liberdade que o pai lhe confiou. Faltou responsabilidade.

   O que aconteceu com o filho pródigo acontece com todos nós e a liberdade ilusória é uma tentação constante. Hoje, são a cultura e a tecnologia modernas, o progresso desenfreado e a economia capitalista que propagam uma falsa liberdade, que oferecem uma sensação de liberdade, desconectada da responsabilidade para com as outras pessoas. As ações humanas e o possuir dinheiro e bens criam cada vez mais ilusões de liberdade. Muitas vezes, confia-se que a liberdade tem a ver com fazer coisas incríveis e ter certas coisas que poucas pessoas podem ter. Aqui, ser livre significa, muitas vezes, ficar sozinho, não precisar fazer nada.

   Essa liberdade ilusória dura pouco e logo descobre-se que o mundo marcado por egoísmo e ganância de ter e fazer coisas não consegue oferecer liberdade verdadeira. Então, a pessoa cai na solidão e, tal qual o Filho pródigo, não está mais livre, mas perdida! Nessas horas, o caminho de casa, de alguém que possa nos orientar, é a única saída que temos.

Liberdade cristã é um compromisso

   Uma liberdade verdadeira está sempre vinculada à responsabilidade e isso, geralmente, significa um compromisso. É como se a liberdade fosse um caminho e não um ponto de chegada. Sem o vínculo com um compromisso, com uma tarefa, com uma responsabilidade, liberdade não é liberdade de fato. Se você quer ser livre, então precisa saber para que quer ser livre. A prova dos nove da liberdade é se você tem uma resposta para essa pergunta: ser livre para quê? ou então: Ser livre para quem?

   A fé cristã oferece uma liberdade que tem um algo mais, um modo de vida diferente, a partir da liberdade que Jesus Cristo nos dá. Ele não só nos liberta de alguma coisa que nos aprisiona, mas também e principalmente para viver uma nova vida. Costumase dizer que a liberdade cristã não é liberdade de alguma coisa, mas para os outros. Cristo nos libertou para que nós sejamos de fato livres (Gálatas 5.1). Aqui está a liberdade verdadeira, que rompe com qualquer sensação ou ilusão de liberdade.

A verdadeira liberdade se vive na fé cristã

   A vida e a obra do Reformador Martim Lutero são um grande testemunho da luta pela liberdade cristã. É alguém que pode ser verdadeiramente chamado de um cristão livre para servir. Para Lutero, liberdade só faz sentido se tratada junto com o tema da Fé em Jesus Cristo e do Amor Cristão, verdadeira medida e verdadeiro limite da liberdade que Deus dá ao ser humano.

   Em 1520, no livro Da liberdade Cristã, Lutero diz que, pela fé, ‘um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém’. Esta clássica afirmação de Lutero fundou um novo modo de entender o ser humano, e surge da interpretação da palavra do Apóstolo Paulo em 1Co 9.19: Sou um homem livre, não sou escravo de ninguém. Isso significa que é Deus que torna a pessoa livre, que graciosamente lhe dá a liberdade, que é vivida pela pessoa por meio da fé, ou seja, ninguém é livre por conta própria! Mais que uma conquista, a liberdade é um presente de Deus.

   Para Lutero, é a fé que vive esta liberdade concedida por Deus. Pela fé, o cristão não é mais escravo de ninguém. A fé não permite que a pessoa seja mais escrava de qualquer coisa – nem mais ídolos nem ideologias falsas nem escravo do consumismo, do ativismo ou algo parecido. É por isso que o cristão não vive mais em si mesmo, quer dizer, olhando para o seu próprio umbigo, mas espelhando a Cristo, ou seja, sendo um Cristo para os outros. O cristão nem vive para si mesmo e para as suas vontades mesquinhas, mas para Cristo, ou seja, para quem é o rosto e a vida de Cristo ao nosso redor.

 

Que coisa inusitada é o Evangelho! Como pode ser que cumprir Mandamentos e realizar tarefas responsáveis nos torna realmente livres? É que viver essa liberdade responsável não é para qualquer um! 

 

O amor é o limite da liberdade

   Neste mesmo livro de 1520, depois de falar sobre a fé, Lutero também relaciona a liberdade ao amor cristão, dizendo: ‘um cristão é um servo prestativo em todas as coisas e está sujeito a todos’. Aqui, Lutero também interpreta o apóstolo Paulo, que diz, em Romanos 13.8: Não fiquem devendo nada a ninguém. A única dívida que vocês devem ter é a de amar uns aos outros.

   Este amor que o cristão recebe por meio da fé o motiva e o obriga a exercer o serviço ao próximo – com alegria, paixão e compromisso. O amor cristão é prestativo e serve ao próximo por causa de Cristo. Este amor cristão leva à renúncia e à entrega ao seu semelhante e à Criação de Deus. Tudo por força da graça de Deus. Este amor cristão liberta a pessoa de si mesma para a tarefa de servir ao próximo e cuidar da Criação de Deus.

   Portanto, a liberdade que vem de Deus encontra eco na fé e tem limite no amor, por isso afirmamos que a direção da liberdade é a responsabilidade, que é dizer a mesma coisa que amor cristão. Sem o limite do amor e da responsabilidade, a liberdade é ilusão e a gente se perde. A liberdade de Deus nos liberta das prisões deste mundo e de nós mesmos e nos impulsiona para o amor ao próximo e a fé em Deus, para libertar a todos.

Pela graça de Deus, livres para cuidar – dia a dia!

   Daí em diante, a cada dia, o amor cristão e a fé cristã, quando verdadeiramente livres, vão produzindo vida responsável, tornando possível animar-se e animar as pessoas para um modo de vida diferente, um jeito diferente e responsável de viver e de tratar as pessoas e toda a Criação de Deus.

   Viver a liberdade responsável recebida no amor de Deus é um serviço diário da fé. A partir da vivência diária do Batismo, da nossa morte e ressurreição dia a dia, vamos sendo envolvidos pela liberdade que Cristo proporciona. Ela vai nos moldando e aí vamos descobrindo novos modos criativos de nos comprometermos responsavelmente com ela.

   Ser livre com responsabilidades pode significar ter um novo comportamento em casa ou, então, ir para a rua atrás do próximo, que precisa do nosso amor, ou, então, a vontade de mudar os hábitos destrutivos, o compromisso assumido na Igreja ou, ainda, a participação em grupos ecológicos da sociedade ou, quem sabe, querer ser um Ministro mais criativo. Nessas questões muito práticas, vamos exercitando e preservando a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Não é tanto ser livre, mas ir sendo feito livre.

Devemos temer e amar a Deus

   Lutero nos mostrou que, nos Mandamentos de Deus (Êxodo 20), nós encontramos um bom catálogo para cumprir uma vida responsável em liberdade cristã: confiar e crer em Deus, que dá a vida, amar sempre ao próximo, santificar o Dia do Senhor e dignificar o nosso trabalho, honrar a todos os pais e todas as mães, não matar, não trair ninguém, não roubar coisas – nem sonhos nem ideias –, não mentir para os outros nem para si mesmo, não acumular bens injustamente e não cobiçar a vida dos outros.

   Cumprir os Mandamentos significa cuidar da liberdade de Deus confiada ao seu povo. Esta ética, que brota da fé, acolhida pelo amor, verdadeira disciplina para a vida, afoga diariamente em nós o egoísmo, os maus desejos e a velha natureza e nos coloca em condições de viver, de forma responsável, a liberdade a nós confiada.

Liberdade não é um sentimento, mas uma tarefa

   Que coisa inusitada é o Evangelho! Como pode ser que cumprir Mandamentos e realizar tarefas responsáveis nos torna realmente livres? É que viver essa liberdade responsável não é para qualquer um! Agora que eu sou livre em Cristo, é agora mesmo que eu tenho condições de assumir novas responsabilidades. Liberdade cristã não é um sentimento, mas um impulso para a tarefa de amar. Agora eu sei que posso escolher e também ajudar outras pessoas a decidirem entre o que é útil e inútil na vida, o que é o certo e o errado no casamento, o bom e o ruim no trabalho, o saudável e o doentio na educação dos filhos, o correto e o incorreto na Igreja, o bem e o mal na cidade, a vida e a morte.

   Liberdade com o limite da responsabilidade é o que descobriu o Filho pródigo ao voltar para casa, finalmente encontrando um caminho onde ele venceu os vícios da liberdade ilusória. Antes, ele não estava livre, mas perdido, sem direção – igual a um jovem que, ao não reconhecer os limites, perde-se para além do seu território e não encontra mais o caminho. O filho pródigo, junto ao pai, em casa, está verdadeiramente livre e pode optar de novo por uma nova vida. Ter decidido voltar para casa é o mesmo que decidir viver uma vida responsável. Responsavelmente, ele tomou uma decisão e se colocou de volta para um lugar seguro e abençoado. Ele, agora, é como um cristão, livre em Cristo, e pode participar ativamente da libertação da sua própria vida.

Agora que eu sou livre em Cristo, é agora mesmo que eu tenho condições de assumir novas responsabilidades. Liberdade cristã não é um sentimento, mas um impulso para a tarefa de amar.

 

 

P. Edilson Claudio Tetzner, Ministro na Paróquia em Palmeira Santa Joana, em Itaguaçu/ES, é Coordenador Teológico da Juventude Evangélica (JE) no Sínodo Espírito Santo a Belém.

 

 

 

 

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