Jornal Evangélico Luterano

Ano 2017 | número 802

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

Porto Alegre / RS - 15:37

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Uma Comunidade atual há 500 anos

Duas revoluções na área da comunicação nos últimos cinco séculos reafirmam a importância do conteúdo e da forma das palavras, tornando Lutero ainda mais atual!

Somos a Igreja da Palavra. Lutero ganhou fama após cravar 95 mensagens curtas na porta da Igreja de Wittenberg, na Alemanha. Um ato histórico, inaugurado por um grande comunicador e que estabeleceu uma marca. Do portal, as suas palavras terminaram impressas e se multiplicaram, aos milhares, graças à descoberta promovida por Gutenberg: uma revolução que juntava letras em pequenas peças de metal, formava palavras e as prensava sobre o papel. Lutero, diante das facilidades técnicas que surgiram em sua época, deu o melhor de si. Inspirado pela fé, juntou as palavras, as endereçou e devolveu ao povo. Ele apontou um caminho em tempos difíceis, algo que rende benefícios até hoje. No mundo atual, grande parte das pessoas não sabe que essas conquistas profundas tiveram a sua origem na Reforma Protestante.

Este último ano foi marcado pela enorme força das Redes Sociais: o que era boato passou a ser chamado ‘pós-verdade’ - a banalização da mentira. Poucas pessoas se dão ao trabalho de conferir se as notícias são, de fato, reais ou falsas.

Lugar virtual

Após 500 anos, ao celebrar o Jubileu da Reforma, temos uma nova revolução na área da comunicação. Os tipos de letras de Gutenberg se transformaram em impulsos digitais que juntam letras em uma velocidade impossível de imaginar. A palavra e a combinação entre uma e outra já não dependem apenas da capacidade humana. Há máquinas – os buscadores – que combinam bilhões de palavras e, com os seus ‘sistemas’, as devolvem aos usuários. Uma revolução fantástica, fascinante e, ao mesmo tempo, assustadora. A exemplo do que fez Lutero, devemos colocar as nossas capacidades e a nossa fé à disposição para que a ‘inundação digital’ não devaste o ser humano e os seus lugares de convivência.

Esse último ano foi marcado pela enorme força das Redes Sociais: o que era boato passou a ser chamado ‘pósverdade’ – a banalização da mentira. Há uma multiplicação contagiosa de afirmações e julgamentos que, de tão grande, passou a ocupar espaço na nuvem e na cabeça de milhões de pessoas em tempo real. Poucas pessoas se dão ao trabalho de conferir se as notícias são de fato reais ou falsas. Esse enorme fluxo de informações aumenta medos e ódios, influencia decisões políticas, determina caminhos e demarca horizontes.

Lugar da Palavra

Palavra boa, para o ser humano, tem rosto. Palavra leal, a respeito de Deus, cabe em uma manjedoura. Hoje, a combinação das palavras, o poder de juntar informações virou um tipo de ‘deus nas nuvens’. Ser lembrado que a Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós (João 1.14), aponta para o que foi vital no passado e continua como um desafio atual ainda maior.

A comunicação que, de fato, considera Deus e os seres humanos não teme avanços, desde que as palavras sejam pronunciadas com os ‘pés no chão’, tenham endereço e um determinado contexto – a Comunidade.

Nesse esforço de encontrar um rosto, lembramos de uma mulher, Sabine, com os seus 90 anos. Ao saber da visita das bisnetas, ligou para a neta, querendo saber quais os filmes, as músicas, os livros e as matérias escolares que mais as interessavam. ‘Quero ter assunto com as minhas meninas’, dizia ela.

Mais do que a experiência dos longos anos, vale a atitude dessa mulher: curiosidade, esforço em encontrar conexão com as novas gerações. A bisavó saiu da sua zona de conforto ao procurar se manter atualizada. Esse encontro, bisavó, netas e bisnetas, viabilizou um espaço no qual compartilharam histórias, risos e brincadeiras. O mesmo ocorreu na festa com amigas e amigos da Comunidade, ocasião em que a aniversariante disse os seguintes versos:

Este é o meu lugar. Aqui posso falar e ouvir. Posso fazer perguntas a respeito de tudo e tentar dar respostas a elas. Posso forjar algo, juntamente com os outros, trazendo e contribuindo com ideias próprias. Também posso permanecer sentada, ouvindo e assimilando. Aqui encontro portas abertas e, se possível, posso abri-las aos outros. Encontro lugar para orar e restabelecer forças. Aqui me é permitido apreender e compartilhar as minhas experiências. Aqui é o meu lugar. Esta é a minha Comunidade! 

Lugar da novidade

O que faz com que existam tais atitudes? O peso dos anos não a intimidou! Recordações provocam nostalgia, lembranças do que passou, se perdeu e não volta mais! O que fazer com o que parecia valer para sempre? Diante do que está à frente, esses sentimentos adquirem uma força que não deve ser subestimada. Manifestação do desejo de poder reviver algo, de fazer de novo, de fazer melhor? Se, por algum instante, a vida possa parecer impossível, sem isso ou aquilo, no momento seguinte tudo muda. Em meio a todas essas considerações, a bisavó observa as bisnetas. Não só olha, interage e realiza experiências novas. Mais... sentiu que, nesse espaço livre que se criou, Deus também está presente.

Nada pode nos devolver ao passado. Não podemos começar de novo repetindo velhos hábitos. O passado sempre será insuficiente. Por mais que ele tenha sido vigoroso, corajoso e marcado época, falhas e precariedades também estiveram presentes.

Não importa o acúmulo dos anos. Nascer de novo (João 3.1-8) é possível e necessário. No renascimento, reside a possibilidade de seguir em frente e ter relevância. O Espírito que Deus nos deu não nos faz tímidos; ao contrário, o seu  Espírito nos enche de poder, de amor e nos dá domínio... (2Timóteo 1.7), para não afundarmos no passado ou nos perdermos no futuro.

Lugar ‘protestante’

Situações desconfortáveis e ameaçadoras causam recuos e atitudes defensivas, momentos em que se multiplicam respostas rápidas e superficiais. Nessas situações não são as ideias, mas as atitudes afirmativas que nos levam adiante. A Comunidade é o lugar em que ‘treinamos’ essas atitudes! Ao nos exercitarmos, surge a solidariedade, o silêncio respeitoso e compreensivo, o não conformismo diante da injustiça e do mal feito. A prática diaconal fomenta um ambiente de resistência, no qual não desistimos de nós mesmos e dos outros. Nas brechas e nas bordas da prática comunitária, acontecem coisas inesperadas. Ao vivenciá-las, não seremos mais os mesmos. O espaço da Comunidade é uma escola de cidadania. Nela, desenvolve mos a reverente percepção do valor da vida e a necessidade de persistirmos na preservação do bem comum.

Na Comunidade, há pequenos bancos em que Deus costuma ‘sentar para conversar’. Deus se relaciona conosco para nos devolver a dimensão do que é humano, a capacidade de amar a vida, tantas vezes tolhida, maltratada, desconsiderada.

 

 

Lugar de preservação

Na Comunidade, ocorrem momentos inesquecíveis. Quem os vivencia, dirá a si mesmo e aos outros: ‘Foi bom estar lá. Foi muito bom ter tido a iniciativa. Foi uma experiência espontânea! Esse tipo de prontidão e disposição recebe o seu alimento pelas raízes mais profundas, fundamentais nas relações comunitárias, uma vez que promovem um lugar adequado à sustentabilidade da vida. A viabilização e a manutenção das relações comunitárias é um presente de Deus que nos desafi a e surpreende. A Comunidade, na verdade, é uma área de preservação permanente.

Lugar público

Na Comunidade, há pequenos bancos em que Deus costuma ‘sentar para conversar’. A sua presença aponta para as possibilidades ainda adormecidas nas pessoas, para o que é possível fazer quando atuamos e celebramos juntos. Deus se relaciona conosco para nos devolver a dimensão do que é humano, a capacidade de amar a vida, tantas vezes tolhida, maltratada, desconsiderada.

Deus não se faz presente na onda consumista, nas leis econômicas nem mesmo na alucinante lógica digital. Também não se manifesta na política e na religião, desde que não traiam a finalidade pública que lhes cabe.

A fé cristã, marcada pela Reforma Protestante, aponta para a relevância das nossas Comunidades locais à medida que elas sejam mais acolhedoras diante da diversidade, sensíveis e alertas diante das tendências do momento, ativas entre aqueles que buscam transformar e organizar, de forma sustentável, a vida em sociedade.

Diante dos enormes desafios do presente, da legitimidade necessária para os próximos 500 anos, ainda não temos respostas adequadas nem conseguimos avaliar o impacto das transformações pelas quais teremos que passar, mas o lugar onde Deus se dá a conhecer, este já conhecemos: a Comunidade!  

P. Me. Hermann Wille,
Coordenador das atividades pastorais na Igreja da Paz e do Núcleo Comunitário PraXis, em Santo Amaro/SP

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