Jornal Evangélico Luterano

Ano 2017 | número 806

Sábado, 16 de Novembro de 2019

Porto Alegre / RS - 21:55

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Família: um desafio para os próximos 500

O Tema e o Lema da IECLB para 2017 nos desafiaram a nos colocarmos em movimento, a jubilar e nos alegrar em Comunidade, em família e para dentro de uma sociedade plural. Somos Igreja de Jesus Cristo, formada por diferentes pessoas, culturas, sonhos e desafios. Somos Igreja na qual a diversidade precisa ser valorizada e acolhida, para que o corpo todo cresça e se coloque em movimento edificante e jubiloso.

Se queremos olhar para os próximos 500 anos com olhares de esperança, crescimento e valorização do corpo em sua diversidade, é preciso buscar por bases sólidas, que nos sustentem, especialmente no que se refere à vida em família e ao acolhimento de novas composições familiares no seio das Comunidades Luteranas.

É na diversidade da vida que a Igreja caminha e aprende a ser família cristã, integrando em sua comunhão os mais diversos modelos de família que se formam e querem viver sob a Palavra e a orientação de Deus.

O que nos sustenta?

No ano em que celebramos o Jubileu da Reforma Luterana, convém relembrar as bases para toda a discussão teológica e eclesial. Segundo Lutero, temos a nossa raiz e o nosso suporte firmado em Cristo (Sola Christus) e na sua Graça (Sola Gratia), permitindo que toda a nossa ação e o nosso pensamento sejam fundamentados somente nas Escrituras Sagradas (Sola Scriptura). Pois bem, se assim o é, na prática eclesial e familiar, muito temos a aprender destes princípios.

Quem foi o Cristo que sustenta a nossa ação? Ele optou em andar entre os humildes e partilhou a sua vida com diferentes tipos de pessoas e famílias. Era amigo de mulheres e as valorizava (Marta e Maria), acolhia pessoas pecadoras (Zaqueu e a mulher adúltera), respeitando essas pessoas e as chamando ao arrependimento. Recebia as crianças com amor, valorizando todas em suas capacidades. Jesus mexeu com os modelos instituídos e estabeleceu novas possibilidades colocando o Reino de Deus acima das relações familiares (Mt 4.21-22, 8.21-22, Mc 3.35 e 13.12-13). Para ele, os laços de sangue são uma realidade secundária. Este Cristo é fundamento para a nossa ação. Se dele fugirmos, estaremos legislando em causa própria e criando condições para a exclusão e o desrespeito.

É pela Graça de Deus que se torna possível superar a tendência humana de querer se sobrepor ao outro ou estabelecer legalismos destrutivos e degradantes. O critério da vivência cristã é a fé, por meio da qual Deus nos aceita em Cristo, mesmo sendo pessoas falhas e pecadoras. É esta Graça de Deus que nos torna iguais em nossas diferenças e permite o enriquecimento das relações humanas a partir daquilo que cada pessoa ou grupo tem de singular.

Na Graça de Deus, tomamos parte, por meio da ação de Cristo, em favor da humanidade, sem distinções ou privilégios. Esta ação, revelada pelas Escrituras Sagradas, se sobrepõe a costumes, tradições e instituições que tenham por objetivo excluir ou julgar. Ao usar as Sagradas Escrituras como parâmetro de vida, é preciso usar boas chaves de leitura considerando o seu contexto e as influências culturais presentes, sabendo identificar nela a Palavra de Deus que orienta a vida em e para todos os tempos.

O que temos e somos?

Somos família de Deus, formada por muitas e diferentes famílias humanas, unidas entre si por vínculos consanguíneos, de afetividade ou de comunhão, convivendo em uma relação de respeito e amor cristão (Valorizando a família). Nessa grande família, a prioridade de acolhimento não está no modelo legalmente reconhecido e, muitas vezes, duramente engessado, mas no vínculo que une umas pessoas às outras. Podemos até não concordar em admitir determinados modelos, mas o nosso dever cristão é respeitar e acolher em amor o ser humano que vive neste modelo, de maneira que o corpo todo cresça e obtenha ganhos a partir da diversidade. Desta maneira, o que nos caracteriza e une como famílias cristãs são os laços espirituais que estabelecemos entre nós, os quais são capazes de superar qualquer modelo ou escolha.

Temos diante de nós o desafio cristão de aprender a acolher e integrar cada pessoa dos diversos modelos familiares no seio da Comunidade Cristã, sem julgamentos ou preconceitos, ensaiando um novo modelo de comunhão e crescimento pessoal e comunitário. Seja na grande família cristã ou nas peculiares famílias humanas, o desafi o maior está em viver comunhão e experimentar um crescimento pessoal e comunitário por meio da vivência do amor, que se traduz em respeito, acolhimento e compromisso mútuo.

Jubilar alegres? Todos queremos! Este júbilo precisa nos comprometer com uma Reforma constante dos nossos modelos e pensamentos. Erramos? Vamos pedir perdão e, pela Graça de Deus, recomeçar!

O que podemos ser?

O ser humano tem estabelecido modelos para viver em sociedade e em Comunidade a partir das necessidades culturais e históricas que lhe são colocadas. Estamos em constante evolução, novos modelos vão surgindo e estes não precisam, necessariamente, mexer com as nossas bases teológicas e confessionais, mas torná- las ainda mais sólidas. O modelo tradicional de família tem a sua razão de existir e deve ser cultivado. Porém, ele não é exclusivo e tampouco pode ser excludente. Novos modelos de família clamam por acolhida e compreensão e podemos ver neles uma possibilidade de complementariedade e de aprendizado constante.

A exemplo do Apóstolo Paulo, na carta aos Efésios (Ef 4.1-3), o desafio maior está em aprender a ‘suportar (umas pessoas às outras), com humildade e boa educação, buscando vivenciar a união, que só é possível quando permitimos que o Espírito de Deus nos conduza. Podemos e, se queremos vivenciar mais 500 anos como Igreja Luterana, devemos ser o suporte, o acolhimento, o apoio da outra pessoa sem perguntar por méritos, opções ou condições pessoais.

É na diversidade da vida que a Igreja caminha e aprende a ser família cristã, integrando em sua comunhão os mais diversos modelos de família que se formam e querem viver sob a Palavra e a orientação de Deus. Mesmo que a caminhada seja difícil, não podemos esquecer que o desafio está em nos carregar mutuamente e fazê-lo com alegria e bom ânimo, porque ‘irmão e irmã não pesam’, não precisam ter o mesmo sangue nem viver nas mesmas condições.

Podemos ser famílias luteranas que, a exemplo de Lutero, educam as no vas gerações baseadas na ética cristã, que acolhe sem medo e convive em paz apesar de todas as diferenças. A partir da Reforma, as famílias são incumbidas de educar os seus filhos e as suas filhas. Esta talvez seja uma das características mais relevantes a ser cultivada se queremos fazer desta data um marco de mudança.

A partir de uma base teológica sólida (Christus, Gratia e Scriptura), temos o desafio de educar para um convívio igualitário, respeitoso e que valorize a comunhão familiar, distribua tarefas, perpetue amor, confiança, responsabilidade e liberdade. Se queremos ser uma Igreja acolhedora, é preciso começar aprendendo a acolher não apenas as pessoas ‘iguais’, mas especialmente as pessoas ‘diferentes’. Temos o dever cristão de educar as novas gerações para os desafios da vida ajudando-as a perpetuar valores da ética e da moral cristã, que superem preconceitos e moralismos, tão presentes na sociedade que nos cerca e, muitas vezes, perpetuados nas Comunidades de fé.

Queremos mais 500

Quando afirmamos que ‘agora são outros 500’, não podemos pensar que, em um passe de mágica, tudo se transforma e renova. É preciso rever opiniões, confessar pecados, refazer pensamentos e convicções, retrabalhar (pre)conceitos. É preciso reaprender a sentar ao redor da mesa com as nossas famílias, como fazia Lutero, para orar, louvar a Deus e viver a comunhão cristã. Se queremos mais 500, faz-se necessário passar por um processo de cura de preconceitos que geram guetos, favorecem exclusões e impedem uma caminhada saudável de todo o Corpo de Cristo.

Jubilar? Todos queremos! No entanto, este júbilo precisa nos comprometer com uma Reforma constante dos nossos modelos e pensamentos. Erramos? Vamos pedir perdão e, pela Graça de Deus, recomeçar! Segundo Lutero (Discursos à Mesa), a ‘família é a fonte da prosperidade e da desgraça dos povos’. O que vamos querer?

Pa. Iraci Wutke, Ministra na Paróquia em Rio Possmoser, em Santa Maria de Jetibá/ES

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