Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 762

Sábado, 19 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 16:32

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   A valorização da vida matrimonial, como um servir em Cristo, é um ponto fundamental da Reforma Luterana. É consequência da convicção de Lutero, cujo posicionamento é resultado de reflexões teológicas profundas, que o levaram a expor a sua discordância perante normas da Igreja Católica e, consequentemente, da sociedade da época. Um breve resumo do contexto histórico da sociedade e da concepção religiosa da Idade Média Posterior (século XVI) ajudam a entender a sua postura.
   Naquela época, o celibato era considerado a melhor forma de vida para se alcançar a salvação. Além disso, uma vida no mosteiro garantia certo estilo de vida, proteção e bom nível de formação. Assim, apesar de estarem sujeitos a uma vida em reclusão, sob regras rígidas, muitos optavam para esse estilo de vida – ou eram conduzidos aos Mosteiros pelos pais, ainda crianças.
   Martim Lutero ingressou no Mosteiro Agostiniano de Erfurt depois de uma experiência extremamente agoniante de medo da morte. O medo do Deus juiz e do castigo eterno eram tamanhos que, para agradá-lo, Lutero tentou viver uma vida de reclusão total, na abstinência e até no sacrifício corporal. Ao mesmo tempo, intensificou a leitura e o estudo profundo da Bíblia. Com a descoberta da justificação por graça e fé somente (Rm 1.16-17), esse seu estilo de vida perdeu o sentido.
   A Reforma tomou o seu rumo, com as suas consequências para a Igreja e para a sociedade na época. Mudanças de valores e posicionamentos que dizem respeito ao papel da mulher na família, na comunidade e na sociedade bem como a valorização das crianças e a sua educação e formação faziam parte das suas prioridades. Surge assim, uma nova concepção de relacionamento que, todavia, hoje em dia não deverá ser interpretado a partir da nossa realidade, mas a partir do contexto histórico da época.
   O nosso tema é o matrimônio ou, mais especificamente, o testemunho cristão no matrimônio: mulher e homem vivendo em conjunto na família e em liberdade, na dedicação à comunidade. O Tema da IECLB para 2013: Ser, Participar, Testemunhar - Eu vivo comunidade quer ser o fio vermelho dessa reflexão, sob a perspectiva da doutrina do sacerdócio geral de todos os crentes.

Na família, vive-se, cotidianamente, a comunidade cristã. Na família, apendemos a ser, a participar e a testemunhar o amor, a solidariedade e o respeito. A família, que é a menor comunidade, é um belo jardim que precisa ser cultivado



   
   A partir da doutrina do sacerdócio geral de todos os crentes, Lutero nega a hierarquia e o monopólio do sacerdócio ao clero e afirma uma paridade sacerdotal a todas as pessoas que creem. A partir do Batismo, recebem a tarefa missionária de pregar e testemunhar a Palavra de Deus. Quero, nesse estudo, segurar o aspecto da paridade do sacerdócio no matrimônio e sublinhar o aspecto missionário que casais e famílias podem exercer na comunidade. A partir da sua participação, como ouvintes da Palavra, como engajados na missão e na diaconia, na comunhão e na troca com outros e casais e famílias, acontece comunidade! No convívio, no deixar-se tocar pelo Evangelho, no envolver-se e comprometer-se com a justiça e a solidariedade, ajudam a construir comunidade diaconal.
   Já nos primeiros anos da Reforma, Lutero se posicionou radicalmente a favor do matrimônio. Ele estava convicto de ser esta a forma de vida instituída por Deus, já conforme as primeiras páginas da Bíblia, segundo os relatos da história da Criação (Gn 1 e 2). É importante assegurar o fato de que ele não separava os dois relatos da Criação, mas via no primeiro relato (Gn 1.1-2.4a) uma versão mais resumida e, no segundo (Gn 2.4b-25), uma mais detalhada da criação do mundo e do ser humano. Sempre de novo Lutero cita e argumenta com esses textos nos seus chamados ‘Escritos sobre o Matrimônio’. Como exemplo, cito uma passagem do seu escrito de 1522 ‘Da Vida Matrimonia’ (Vom Ehelichen Leben, WA 10II, 275-304. Martinho Lutero, Obras selecionadas, 1995, Vol. V, S. 160ss. Introdução de Martin N. Dreher e tradução de Ilson Kayser): Deus criou o ser humano, para que houvesse um homenzinho e uma mulherzinha. Esse enunciado nos dá a certeza de que Deus dividiu os seres humanos nessas duas partes, para que houvesse homem e mulher, ele e ela. Isso lhe agradou tanto que Ele próprio o chamou de boa criatura. Lutero usa Gn 1.27ss como base para a sua compreensão de matrimônio e corporalidade da pessoa. Juntos são criados à imagem de Deus. O ser humano é homem e mulher e não existe nenhum indício sequer de que exista uma hierarquia ou uma diferença nas posições entre homens e mulheres (Gerta Scharffenorth: Den Glauben ins Leben ziehen, S. 143).
   Levando-se em conta o segundo relato da Criação, é muito interessante o fato de Lutero entender que o momento que marca o nascimento do matrimônio é quando o ser humano se reconhece como homem no momento em que encontra a mulher: Então é aqui observado, que Adão (no original hebraico, adam, que significa ser humano) não encontrou nenhuma parceira matrimonial, mas assim que Deus criou a Eva e a trouxe a ele, aí ele sentiu um amor autêntico por ela, e reconhece ela como sua companheira matrimonial (WA 2,166,30-31; 167,1-3. Ein Sermon von dem ehelichen Stand, 1519). Esse segundo relato, porém, é mais problemático e, na sua interpretação, o aspecto hierárquico sempre de novo é acentuado. Segundo a sua tradução do original em hebraico, Deus cria uma ‘ajudante’ para o ser humano, embora o termo hebraico signifique ‘ajuda’, ‘alguém que esteja com ele’, para que o ser humano não esteja sozinho no cuidado da Sua Criação.
   A sua reflexão acerca desta temática é bastante complicada. Não poucas vezes chega a ser contraditória, sendo que, por vezes, a sua posição é muito revolucionária, pois elogia e valoriza as mulheres. Em outros textos e ocasiões, a sua posição é machista e demasiadamente hierárquica.
   Seguindo a sua reflexão sobre o texto de Gênesis, no relato depois da queda, quando Adão e Eva já estão fora do paraíso, Lutero define os diferentes papéis que homens e mulheres desempenharão no casamento, na família e na sociedade, conforme os diferentes ‘castigos’ que Deus aplica: os castigos da mulher remontam para o âmbito doméstico e familiar, na procriação, no seu corpo, no parto, na educação de filhos e filhas (Lutero usa o termo ‘reger a casa’) bem como na submissão do seu marido. Os castigos do homem, por sua vez, remontam para o trabalho fora do âmbito da casa, sendo dele a responsabilidade do sustento da sua família (sob o suor de seu rosto). Em primeiro lugar, ele é castigado por submeter-se à ordem da mulher e não à ordem que Deus lhe dera. Assim Lutero argumenta que a mulher, sendo aquela que toma a iniciativa no pecado, deve, daqui para frente, se sujeitar ao homem e o homem, que se sujeitou à voz da mulher, deve, daqui para frente, ser aquele que domina.
   Interessante para a nossa reflexão sobre o matrimônio cristão é ainda o fato de que Lutero, depois de listar as normas de vida e de relacionamento entre homem e mulher, aponta para a graça e a valorização mútua: ele destaca que o homem (Adão) não vê a mulher como mulher (feminino de homem) mas a chama Eva (que significa vida) – mãe de todos os que vivem!
   A discrepância que existe nos escritos de Lutero quanto à sua posição frente às questões de gênero são alvo de críticas, principalmente por parte de Teólogas feministas. Não podemos esquecer que a sua posição também freou mulheres tanto na sua época como bem mais tarde, quando a tradição da Reforma limitou o papel da mulher na família e na sociedade, argumentando, a partir do seu posicionamento, que, como vimos, chega a ser bem problemático.
   Durante a minha pesquisa sobre o casamento do próprio Lutero com a sua esposa, Katharina von Bora, pude concluir que a sua experiência matrimonial e familiar mudaram a sua postura frente a vários preconceitos ou ideias fixas que afirmava e defendia. O seu convívio com Katharina, que foi uma mulher muito positiva, inteligente, decidida e com um talento administrativo bem especial, o marcaram e o influenciaram. Lutero reconhece as suas potencialidades e a valoriza muito como companheira e esposa, chamando-a de ‘sol da manhã de Wittenberg’ ou ‘Katharina von Bora, die Lutherin’... a Lutera. Portanto, a Reforma abre portas e janelas para a reflexão sobre a importância da amizade e a beleza do matrimônio, em que ambos, mulher e homem, desempenham papéis iguais na família, um não é mais o melhor do que o outro. Aprendemos de Katharina e Lutero, que, na família, vive-se, cotidianamente, a comunidade cristã. Na família, apendemos a ser, a participar e a testemunhar o amor, a solidariedade e o respeito. A família, que é a menor comunidade, é um belo jardim que precisa ser cultivado.

Pastora Heloisa Gralow Dalferth, atua como Pastora Voluntária no Dienst für Mission, Ökumene und Entwicklung, na Evangelische Landeskirche in Württemberg
 

Ultima edição

Edição impressa para folhear no computador


Baixar em PDF

Baixar em PDF


VEJA TODAS AS EDIÇÕES


Gestão Administrativa

A função da Sede da Igreja para a Gestão em rede na IECLB

A IECLB é organizada a partir da Comunidade. A Comunidade existe quando diferentes pessoas (membros) se unem em torno da mesma fé no trino Deus e em torno do mesmo objetivo: vivenciar e testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo. Uma Paróquia existe quando uma ou mais Comunidades (+)



Educação Cristã Contínua

Respeito à diversidade: variedade, pluralidade, diferença

O Apóstolo Paulo escreveu: Em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres, e a todos nós foi dado beber de um só Espírito, porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: porque (+)

AÇÃO CONJUNTA
+
tema
vai_vem
pami
fe pecc
Assim, outros carregam o meu fardo, a força deles é a minha. A fé da minha Igreja socorre-me na perturbação. A oração alheia preocupa-se comigo.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br